segunda-feira, 31 de março de 2014

[Opinião +D] Ainda estamos “em tutela”



Numa das cerca de meia centena de Cartas escritas para António Telmo, escreveu Agostinho da Silva o seguinte: "Parece, no entanto, que pelo jeito com que estão tratando do assunto todo o governo e a oposição, talvez as coisas rebentem primeiro na África, com uma declaração unilateral de autonomia, à moda rodesiana; e parece que grande parte da gente em Portugal se inclina para o abandono de África; o que significará imediatamente Portugal em tutela." (Carta de 17 de Novembro de 1968, in Revista NOVA ÁGUIA, nº 13, 1º Semestre de 2014, p. 102). Quarenta e cinco anos depois, é caso para perguntar: não é como estamos?

Decerto, Agostinho da Silva não defendia a manutenção do regime colonial – pelo contrário, denunciou bem cedo o seu esgotamento. Simplesmente, o fim do regime colonial não deveria implicar, a seu ver, o “abandono” de todos os territórios de língua portuguesa, em prol de uma aposta exclusivista na integração europeia. Dever-se-ia ter criado bem mais cedo uma verdadeira Comunidade Lusófona. Num texto publicado no jornal brasileiro O Estado de São Paulo, com a data de 27 de Outubro de 1957, Agostinho da Silva havia já proposto “uma Confederação dos povos de língua portuguesa”. Escusado será dizer que, passado já mais de meio século sobre esta proposta, estamos ainda longe, muito longe, de ter cumprido este sonho. Ainda estamos “em tutela”.







Renato Epifânio (membro da Coordenação Nacional do +D)

Os textos de opinião aqui publicados, se bem que da autoria de membros dos órgãos do +D, traduzem somente as posições pessoais de quem os assina.

sábado, 29 de março de 2014

[Opinião +D] Gastronomia e Teatro



Sobre Gastronomia:

Quando é possível vou por aí e poder apreciar alguma da gastronomia local é um ótimo começo para descobrir uma região, uma cidade uma comunidade. Os vários agentes, com as autarquias à cabeça, esforçam-se para melhorar, divulgar e inovar usando os produtos mais tradicionais que assim podem agradar a um numero mais vasto de interessados e despertar a curiosidade e a empatia.



Sobre Teatro :

Devo em jeito de aviso prévio dizer que a minha ligação afetiva a um projeto de teatro no baixo Alentejo, me condiciona a razão. Com este fator diferenciador, procuro corrigir o erro de paralaxe, em que incorro, na tentativa de acertar no alvo. Este projeto que me motiva neste texto, já tem mais de uma década de vida e uma linguagem própria que enriquece com a constante importação de talento via ateliers, workshops, residências artísticas e proporcionando estágios remunerados a jovens atores. Contrata profissionais do sector, mais ou menos conhecidos e desse esforço pago, e reforço a palavra pago, criou uma presença inovadora, uma estrutura profissional e uma relação com os principais intervenientes sociais da região que se traduzem em inúmeras atuações fora do Concelho e do Distrito de origem. Um Município que possa contar com uma estrutura profissional residente que respira e vive a identidade local e onde encontra a inspiração para as suas intervenções, tem que apesar das dificuldades e constrangimentos de gestão, apoiar aquele que é sem duvida um laço de identidade local. Nesta altura parece-me que é vital para as comunidades que se reforce a sua coesão e auto estima. No entanto, em cima das dificuldades, por todo o país, aquilo que está a acontecer é o alheamento das autarquias pela Cultura e por aqueles que profissionalmente desenvolvem trabalhos sérios, comprometidos e enriquecedores da realidade local, favorecendo soluções de entretém imediato, completamente amorfo e sem envolvimento das populações.

Como na Gastronomia, precisamos que os agentes locais de Cultura consigam criar projetos sustentáveis que envolvam, divulguem e redefinam a realidade das suas comunidades utilizando os produtos locais transformando-os com trabalho e inovação.

Aos autarcas é pedida a capacidade de investir no património imaterial da sua comunidade como nos outros tipos de património, sob pena da agonia das mesmas se acentuar descontroladamente.
São apostas estratégicas. Vamos ver quem as assume.


Carlos Seixas  (membro da Coordenação Nacional do +D)

Os textos de opinião aqui publicados, se bem que da autoria de membros dos órgãos do +D, traduzem somente as posições pessoais de quem os assina.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Quarenta anos depois… [Opinião +D]


Se, por um lado, o Portugal de hoje é um país mais desenvolvido, temos agora a plena consciência de que o preço desse desenvolvimento foi a quase bancarrota. Muito mais desenvolvidos do que há quarenta anos, temos hoje muito menos autonomia para definir o nosso futuro colectivo. Cada vez mais, estamos à mercê dos nossos credores, a quem só nos resta pedir um perdão parcial da nossa dívida ou, como agora se diz em linguagem mais politicamente correcta, uma “reestruturação”. Quarenta anos depois, convenhamos que o balanço poderia e deveria ser bem mais positivo.

Poderíamos e deveríamos ser hoje um país ainda mais desenvolvido e muito mais forte à escala global, assim não tivéssemos desprezado os laços com os restantes países e regiões do espaço lusófono, o que foi decerto o nosso maior erro geopolítico nas últimas décadas. Ter apostado tudo na integração europeia levou-nos a este beco sem aparente saída, a este impasse, provavelmente o maior impasse da nossa já longa história. O balanço final de Abril dependerá, em última instância, da forma como conseguirmos (ou não) superá-lo. Haja vontade para tanto.





Renato Epifânio (membro da Coordenação Nacional do +D)

Os textos de opinião aqui publicados, se bem que da autoria de membros dos órgãos do +D, traduzem somente as posições pessoais de quem os assina.

segunda-feira, 17 de março de 2014

[Opinião +D] Sem autonomia cultural não pode haver autonomia política


“Sem autonomia cultural não pode haver autonomia política” – eis um dos princípios do Movimento da Filosofia Portuguesa que permanece por inteiro actual. E não apenas para Portugal. Para dar um outro exemplo lusófono, se Timor-Leste resistiu à ocupação indonésia e se conseguiu afirmar a sua autonomia política foi, desde logo, porque soube sempre preservar a sua autonomia cultural. Essa foi a base de tudo o resto.

Vem esta breve nota a propósito do lançamento de mais um número da Revista NOVA ÁGUIA – o décimo terceiro –, uma revista que, nas palavras do ensaísta Miguel Real, “sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português”. Em prol da preservação da nossa autonomia cultural, fica pois o convite: a sessão decorrerá dia 23 de Março (Domingo), às 17h, no Palácio da Independência, em Lisboa (junto ao Rossio).







Renato Epifânio (membro da Coordenação Nacional do +D)

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sexta-feira, 14 de março de 2014

[Opinião +D] Baralhar e tornar a dar….


A propósito do Manifesto dos 70 apetece-me perguntar o que é que tão doutas e avisadas personagens, andaram a fazer enquanto usufruíam das benesses dos cargos políticos, já ocupados a gerir a coisa pública que desleixaram, até nos meteram nesta camisa de onze varas?

Onze varas ou mais, porque há varas para todos os gostos. A asfixia que a toda poderosa austeridade provoca, tem resultados profundos e de longo prazo tal e qual a privação de oxigénio no nosso organismo, mata tecidos irreversivelmente e não permite a sua recuperação. Feita em todas as direções, progride rápida nas fragilidades, acentuando-as.

A falta de equidade na repartição do esforço está diretamente relacionada com o poder e é a eliminação deste constrangimento que continuamos a não ver. Mesmo que as estatísticas repescadas pela subserviente Comunicação Social digam que os 20% dos mais ricos perderam com a crise mais do dobro do que perderam os 20% mais pobres, isso assinala é, com estrondo, o fosso social que se acentua e o urgente e necessário corte nas despesas que o Estado teima em perpetuar, através e para os seus fiéis súbditos.





Carlos Seixas  (membro da Coordenação Nacional do +D)

Os textos de opinião aqui publicados, se bem que da autoria de membros dos órgãos do +D, traduzem somente as posições pessoais de quem os assina.

terça-feira, 11 de março de 2014

[Opinião +D] Já lá vai um ano…

11 de março de 2014 - faz um ano que anunciámos publicamente a primeira candidatura autárquica independente à Câmara Municipal e à Assembleia Municipal de Santarém. Surgia o Mais Santarém…

Foi, tenho consciência disso, um marco histórico para a nossa cidade e para o nosso concelho.

Quando, nesse dia, com a Dra. Margarida Ribeiro de Almeida ao meu lado – que mais tarde veio a ser a 1ª signatária da candidatura - anunciei que seria candidato à presidência da Câmara Municipal de Santarém, tinha a certeza de que aquele era um projeto para levar até ao fim. Não sabia era a dimensão e apoios que conseguiríamos nos meses seguintes. Não tinha era também a exata noção do esforço que iria ser necessário da parte de muitos para conseguirmos as cerca de 2 000 assinaturas imprescindíveis para que esse projeto fosse realidade…

Mas, com muita calma e com expetativas sempre crescentes, fomos solidamente caminhando.

É bem certo que a 29 de setembro não obtivemos os resultados que uma ou duas semanas antes esperávamos. Mas mesmos os parcos resultados que tivemos, valeram muito a pena. E todos os que estiveram connosco ficaram de parabéns. Gente que, em geral sem querer nada em troca, de forma muitas vezes anónima, tornou possível esta empreitada.

No pós-eleições, o Mais Santarém transformou-se no núcleo local da associação cívico-política Mais D – Democracia em Movimento, mais conhecida por Mais Democracia, de que sou presidente da Coordenação Nacional.

O Mais Santarém, através dos seus eleitos e pelas ações desse núcleo local, vai certamente marcar a agenda do nosso concelho ao longo deste mandato. É aliás o que já está a acontecer. Mas isto sem nunca esquecer que o nosso propósito sempre foi e será ser parte da resolução dos problemas e nunca criá-los. Nunca poderemos ser mais uns a fazer oposição só para a fazer…

Não faço ideia por agora o que acontecerá para as próximas eleições autárquicas. Tudo evolui e muda tão depressa nestes tempos que vivemos… E, como se costuma dizer, “o futuro a Deus pertence”. A ver vamos…




Francisco Mendes (Membro da Coordenação Nacional +D)

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segunda-feira, 10 de março de 2014

[Opinião +D] Um mau exemplo de sectarismo ideológico


Em duas semanas consecutivas, António Guerreiro (AG) brindou-nos com dois artigos contra o que chama “cultura de direita” (Público-Ípsilon, 28.02 e 07.03). Nestes dois, visa, entre outras figuras, o poeta Manuel Alegre, “que é de esquerda, [mas] tem uma concepção da poesia e da figura do poeta nitidamente de direita”. É, pelos vistos, uma obsessão de AG – já num artigo menos recente sobre a Revista Nova Águia, de que sou fundador, escreveu: «A chamada “filosofia portuguesa” conheceu nos últimos anos alguns ressurgimentos editoriais, um dos quais é a revista Nova Águia, herdeira da Águia, que foi o órgão do movimento da Renascença Portuguesa. Apesar da sua aparente apolitia, a Nova Águia (cujo primeiro número era sobre “A Ideia de Pátria” e o mais recente tem por tema o célebre dito de Bernardo Soares: “Minha pátria é a língua portuguesa”) pode ser identificada com uma cultura de Direita. É típico da Esquerda não saber o que é a cultura da Direita, até para evitar o embaraço de verificar o quanto está impregnada dela (por exemplo, a poesia portuguesa mais próxima da cultura de Direita é a de Manuel Alegre).» (Expresso-Actual, 30.04.2011).
Face aos argumentos e exemplos aduzidos, não podemos deixar de expressar a nossa perplexidade. Se AG pretende apresentar, entre nós, um exemplo de um “poeta como vate comparável ao Dichter de Stefan George” não se percebe porque dá o exemplo de Manuel Alegre, havendo tantos exemplos maiores que poderia dar: a começar por Teixeira de Pascoaes, fundador da revista A Águia, em que a Nova Águia se inspira. E daí talvez se perceba: se AG desse o exemplo de Pascoaes, não se poderia continuar a circunscrever ao sectarismo ideológico esquerda-direita que tanto o obceca, pela simples mas suficiente razão de que Pascoaes está muito para além desse sectarismo. Ele, simplesmente, faz implodir essas grelhas, sendo, assim, tão redutor qualificá-lo como um poeta de “esquerda” ou de “direita”. A menos, claro está, que se considere que basta alguém falar de “Pátria” para poder ser qualificado como representante da “cultura de direita” – tese que não resiste a um mínimo de cultura histórica.






Renato Epifânio (membro da Coordenação Nacional do +D)

Os textos de opinião aqui publicados, se bem que da autoria de membros dos órgãos do +D, traduzem somente as posições pessoais de quem os assina.

domingo, 9 de março de 2014

[Opinião +D] Por onde vai esta “democracia”?



A evolução da Europa, nas últimas décadas e até à chegada dos efeitos da crise de 2008, vinha a piscar o olho aos cidadãos com a facilitação de um padrão de consumo nunca antes conhecido, por via de um maior acesso a fontes de financiamento fáceis e baratas. Em Portugal este fenómeno de democratização económica teve expressão no crescimento inusitado do crédito à habitação própria e a segundas habitações, e posteriormente, ao crédito pessoal para aquisição de bens.

Criou-se assim um novo país das maravilhas, onde as pessoas viajavam com os seus novos carros pelas melhores autoestradas e as facilidades de consumo provavam que não era mais necessário as pessoas preocuparem-se com essas questões da política, bem entregue a quem estaria a construir uma nova sociedade de abundância, e bem articulada regionalmente com as novas instituições europeias, estas aliás, geridas por pessoas de elevada respeitabilidade, principescamente remuneradas é certo, mas eivadas dos melhores propósitos e assistidas por reputadíssimos especialistas. Tudo levava a crer que só podia dar certo.

Quebrados os pés-de-barro do modelo de governação político-económico adotado, os cidadãos mais atentos já perceberam que nem as políticas são tão neutras como pareciam, relativamente aos seus interesses próprios, nem os protagonistas eram tão impolutos como pareciam, nem o futuro de cada um seria tão viável quando chegámos a supor.

A onda de emigração que em consequência daquela rotura se gerou nos últimos anos em Portugal, foi uma das respostas dadas por algumas centenas de milhar de cidadãos. Mas o desafio fundamental permanece sem resposta. Ou os cidadãos passam a tomar parte quotidianamente na vida política do seu pais, a começar na sua freguesia e concelho, e a usar os seus direitos políticos de uma vez, ou daqui a 10 anos estaremos ainda mais alienados e dependentes de oligarquias que se vão refinando e organizando em direção a formas cada vez mais autoritárias, que só admitem via única para resolver os problemas que são de toda uma nação e estilhaçam as possibilidades de gerar a alternância política.



 


Fernando Lucas (membro da Coordenação Nacional do +D)


Os textos de opinião aqui publicados, se bem que da autoria de membros dos órgãos do +D, traduzem somente as posições pessoais de quem os assina.

sexta-feira, 7 de março de 2014

[Opinião +D] A Esperança deve ser sempre a última a morrer…



 O passado dia 28 foi mais uma vez dia de Assembleia Municipal em Santarém.

Já não é a primeira deste mandato e, por isso também, cada vez mais vou tendo a franca esperança e quase certeza de que estes quatro anos (2013-2017) vão ser um período com sessões de Assembleia Municipal muito mais corretas, respeitadoras e civilizadas e, por isso mesmo, muito mais interessantes e profícuas do que aquelas a que fui assistindo sobretudo no final do anterior mandato. A agressividade está a dar lugar à procura de consensos. E isso só pode ser motivo de felicidade e satisfação para mim e para todos os que estão na política com motivações sinceras. Certamente que se pode dizer que isso acontece também por não existir maioria. Mas isso pouco me interessa; interessa-me sim, como creio que será o que interessará à generalidade dos nossos munícipes, que os efeitos destas posturas sejam positivos…

Mas, infelizmente, não há bela sem senão. E, na última Assembleia, não pude deixar de misturar este sentimento de satisfação com alguma tristeza por ver que a nossa prática política, não só nacional mas também local, não deixou ainda completamente de ser mais do mesmo, porque ainda não nos conseguimos libertar da “obrigação” de concordar ou não com as propostas apresentadas, de aceitá-las ou não, de acordo com a proveniência das ideias ou das sugestões.

Refiro-me muito em particular à proposta apresentada pelo Bloco de Esquerda que visava nada mais do que a realização de uma sessão da Assembleia Municipal comemorativa do 25 de abril. Sinceramente sempre julguei que esta proposta ali seria dignamente aprovada por unanimidade, como felizmente outras foram. Mas não, pasme-se, foi rejeitada com os votos contra do PSD (depois do seu líder de bancada ter elogiado demoradamente o 25 de abril e os seus obreiros no período antes da ordem do dia…) e com a abstenção da CDU. Claro que o Mais Santarém não pôde deixar de votar favoravelmente esta moção e, felizmente, o mesmo fez o PS. Argumentou a CDU que a participação em anos anteriores foi fraca e que “já se realizou uma sessão solene comemorativa do 25 de Abril nos Paços do Concelho e que não faz sentido a Assembleia organizar uma sessão autonomamente, até porque o programa das comemorações já está concluído e inclui um amplo conjunto de atividades”. Mas porque é que esta sessão não podia ser incluída no programa? Claro que não faria qualquer sentido fazê-lo à parte, sobretudo num ano em que, muito louvavelmente, iremos viver, ao que se espera, eventos comemorativos do 25 de abril promovidos em conjunto pela Comissão das Comemorações Populares e pela Câmara Municipal. Mas lá que esta sessão fazia sentido, não tenho qualquer dúvida.

Mas refiro-me também à não aceitação da moção do Mais Santarém que propunha a assinatura de um Acordo de Entendimento entre as diferentes forças políticas, de modo a assegurar uma continuidade de ação sobre questões e opções essenciais e estruturantes para o concelho. Um plano assumido pelas forças políticas e cívicas que a ele aderissem, que constituiria uma linha de rumo da ação dos responsáveis autárquicos, durante um largo período de tempo (10 a 15 anos), independentemente das suas opções políticas. Apesar de me parecer também que, pelo seu manifesto interesse, suscitaria consenso, o facto de ter sido uma proposta eleitoral do Mais Santarém aquando da última campanha autárquica (apresentada como “Santarém 2030 – Uma Visão para o Concelho”) acabou por ser a principal óbvia razão para a sua não aceitação generalizada! Claro que também houve quem tentasse ver em partes do documento um ataque aos partidos, num texto com que só se picará quem no fundo se sentir pessoal ou corporativamente responsável pelo “estado a que chegámos” de que já falava Salgueiro Maia. Mas ficou assente, por correta e sensata proposta da CDU, que este assunto vai ser alvo de discussão entre as diferentes forças políticas para, após alteração de pontos mais sensíveis para alguns, poder vir a ser aprovado.

Assim espero…







Francisco Mendes (Membro da Coordenação Nacional +D)

Os textos de opinião aqui publicados, se bem que da autoria de membros dos órgãos do +D, traduzem somente as posições pessoais de quem os assina.

quinta-feira, 6 de março de 2014

[Opinião +D] Ter esperança

Sempre acreditei que os Homens são essencialmente bons e que só mudam de acordo com o ambiente e educação em que são criados e, também, pelas experiências que vão tendo ao longo da vida. Chamem-me ingénua ou outra coisa qualquer mas escolho continuar a acreditar nisto.
Contudo, há dias em que é difícil continuar a defender esta minha crença. Há dias em que é difícil ter esperança. Há dias em que o peso dos Senhores do mundo parece vencer de vez. Ligamos a televisão e ouvimos essa terrível notícia que pode estar mais uma guerra prestes a começar. Um povo que se insurgiu contra uma governação corrupta e abusadora do poder e  o resultado é este? 
Quem ganha com tudo isto? Que direito têm nações mais poderosas de intervir na decisão de um povo em relação às questões da sua soberania e governabilidade? E que papel têm aqui os poderes supranacionais que supostamente existem para regular a paz no mundo? Porque continuam os senhores da guerra a ser mais apoiados que as forças da paz?
Todas estas questões ressoam na minha mente e, neste momento, o mundo e a forma como escolhemos ser governados não fazem sentido para mim. Penso nos ucranianos que corajosamente se uniram e lutaram para derrubar um governo usurpador. Penso nas famílias, nos pais e nos filhos. Penso nos jovens soldados, de ambos os lados, que foram chamados à luta e nada disto faz sentido.
Onde está a minha esperança? Onde está a essência original do Homem que tende para o bem? O mundo tem de mudar, as nossas prioridades também. Assim como a nossa forma de educar os nossos filhos. A forma como deixamos passar impunemente a corrupção, como nos calamos à injustiça e ao que está mal. A maneira como nos relacionamos uns com os outros e aquilo que escolhermos como prioritário na nossa vida.
Tudo isto tem uma origem e essa origem chama-se ânsia de poder. Essa desmesurada ganância com que educamos as nossas sociedades e nos habituamos a que fosse a questão central no nosso viver. Achamos que somos felizes se possuirmos muitas coisas e tivermos muito dinheiro. Acabámos por nos convencer que, para isso, precisamos de ter poder. Nós Homens e nós nações. Deixámos de nos preocupar com a busca da felicidade ou, simplesmente, passámos a acreditar que ter é sinónimo de ser. Erramos na forma como construímos as nossa sociedade e é, por isso, que o Homem se continua a afastar da sua essência originalmente boa mas apesar de tudo, eu continuo a acreditar que cada um de nós a quer voltar a reencontrar e é isso que me dá esperança.

 
 
Margarida Ladeira (Membro da Coordenação Nacional +D)
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segunda-feira, 3 de março de 2014

[Opinião +D] Nota sobre a Ucrânia


Não deixa de ser curioso que os mesmos que (bem) tanto denunciaram a ignorância histórica norte-americana nos recentes conflitos no Médio Oriente procurem agora caucionar um conflito entre a Rússia e a (Des)União Europeia a propósito da Ucrânia. O que a Europa deveria ter dito à Ucrânia era simplesmente isto: “Vocês têm que manter uma boa relação com a Rússia”. Em vez disso, criou uma ilusão (como já havia feito com a Turquia…) que, essa sim, pode ter consequências bem desastrosas para os ucranianos. Ou alguém esperaria que a Rússia ficasse de braços cruzados perante o assédio europeu à Ucrânia?

Os únicos que, entre nós, parecem ter percebido isso foram os comunistas, ainda que pelas piores razões. O Partido Comunista Português, pelos vistos, nunca se libertará da ilusão de que a Rússia é ainda a União Soviética e, por isso, defendê-la-á em todas as circunstâncias. Tal como aquelas pessoas com um membro amputado que continuam a “sentir” esse membro, o PCP continua a agir como um “braço armado” de um corpo que já não existe. Já não há imperialismo soviético, nem sequer um “farol” – agora, há simplesmente imperialismo russo. E, se queremos realmente paz na Europa, importa respeitá-lo. Não é razoável esperar que a Rússia abdique da sua hegemonia em territórios em que uma parte substancial da população (e só na Crimeia são cerca de dois terços…) é russófona. É assim tão difícil perceber isto?




Renato Epifânio (membro da Coordenação Nacional do +D)

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